Portugal está a tornar-se secular — isso facilita ou complica a missão?

Os dois temas anteriores mostraram um catolicismo que é, para a maioria, mais herança do que convicção viva. Este tema olha para o que está a crescer no espaço que a prática católica deixou vazio — e a resposta não é, na maior parte dos casos, outra religião. É a ausência de qualquer uma.

Um país “pós-cristão”

Estudos sobre o campo missionário português descrevem Portugal, hoje, como um país “pós-cristão”: não um país que nunca teve cristianismo, mas um país onde, para uma parcela crescente da população — sobretudo mais jovem —, o cristianismo pertence claramente ao passado. Os números do Tema 06 sustentam isto com precisão: os “sem religião” mais do que duplicaram entre 2011 e 2021, e um estudo de 2015 já apontava 31% dos portugueses com menos de 40 anos sem nenhuma atividade religiosa.

Indiferença é diferente de hostilidade

Esta é a distinção central deste tema: a barreira secular não é, na maior parte dos casos, hostilidade activa ao Evangelho. É indiferença. E a indiferença é, nalguns aspetos, mais difícil de atravessar do que a oposição — porque não gera conflito nem conversa. Uma pessoa hostil, pelo menos, está a reagir a alguma coisa. Uma pessoa indiferente simplesmente não tem a religião no seu radar como assunto relevante para a própria vida.

A parte que poucos esperam

Aqui está o dado que costuma surpreender: um estudo de 2019, com 500 entrevistas a não-evangélicos em Portugal, encontrou 78% de concordância com a ideia de que hoje as pessoas estão mais abertas para falar sobre espiritualidade, 62% com uma opinião positiva sobre Jesus Cristo, e 24% disposto a aceitar um convite para conversar informalmente sobre a Bíblia. Estes números pedem alguma cautela — é um único estudo, com metodologia que não foi possível verificar de forma independente — mas apontam numa direção consistente: secularização não é o mesmo que rejeição. Muita gente que já não pratica nenhuma religião continua, ao mesmo tempo, curiosa sobre as perguntas que a religião tentava responder.

Facilita ou complica?

As duas coisas, ao mesmo tempo, e por razões diferentes. Complica, porque elimina a familiaridade: quem cresceu sem prática religiosa nenhuma não tem o vocabulário, os pressupostos, nem sequer as perguntas certas para começar uma conversa sobre fé — o ponto de partida está mais distante. Facilita, porque remove também a resistência específica que o catolicismo cultural gera (a sensação de estar a atacar a família e a identidade, descrita no tema anterior): quem já não se sente católico praticante não tem essa lealdade específica a defender.

Por que isto importa

A conclusão prática é dupla. Não adianta tratar o português secular como um alvo hostil a vencer em debate — a maior parte não está interessada em debate nenhum, está simplesmente a viver sem essa categoria na cabeça. E não adianta esperar que ele venha procurar — a abertura que os números mostram raramente se transforma em iniciativa própria. O que resta é presença genuína, tempo, e conversas que partem de curiosidade real, não de confronto. Esta abordagem é desenvolvida com mais detalhe no Tema 17, mais à frente neste site.

Fontes

  • [Verificado] INE — Censos 2021, crescimento da categoria “sem religião” (referência cruzada com o Tema 06)
  • [Fonte académica] Estudo IPAM (2015) — 31% dos menores de 40 anos sem atividade religiosa
  • [Fonte académica] Estudo de 2019 (500 entrevistas a não-evangélicos), citado via Missão Esperança para a Europa