Fidelidade vs. sucesso — como medir se estamos fazendo a coisa certa

O Tema 20 mostrou que o resultado nunca foi, teologicamente, responsabilidade de quem prega. Isto obriga a uma pergunta prática: se não é pelo número de conversões, como se avalia se um trabalho missionário está a ser feito bem?

O texto mais citado da história das missões teve poucos convertidos

Vale a pena voltar ao discurso de Paulo em Atenas (T16), desta vez para olhar ao resultado imediato. A reação foi dividida: “Quando ouviram sobre a ressurreição dos mortos, alguns zombaram, e outros disseram [que queriam ouvir mais sobre isso mais tarde]” — uma forma educada de adiar indefinidamente. Só depois disso, “alguns homens juntaram-se a ele e creram. Entre eles estava Dionísio, membro do Areópago, e também uma mulher chamada Dâmaris, e outros com eles” (Atos 17:32-34, NVI). Por qualquer métrica moderna de crescimento de igreja — das que o Bloco III analisou com espírito crítico — este seria um evento evangelístico com resultado fraco. E, no entanto, é o discurso missionário mais citado, estudado e ensinado da história cristã.

O que Paulo escreveu sobre o próprio trabalho

Anos depois, escrevendo aos coríntios sobre divisões na igreja em torno de quem os tinha discipulado, Paulo resume a sua própria teologia do ministério numa frase: “Eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem dá o crescimento” (1 Coríntios 3:6, NVI). A frase separa, com clareza cirúrgica, duas coisas: o trabalho — plantar, regar — que é responsabilidade de quem o faz, avaliável, correctível; e o crescimento, que pertence inteiramente a Deus.

Duas perguntas diferentes, outra vez

Há aqui, mais uma vez, duas perguntas que parecem a mesma mas não são — a mesma distinção que separa composição de conversão no Tema 09, aplicada agora a fidelidade e resultado. “Estamos a semear com fidelidade — pregação fiel, presença real, contextualização sem sincretismo?” é uma pergunta a que se pode responder com honestidade. “Quantos vão crer, e quando?” não é. Confundir as duas é exactamente o erro que o Bloco III documentou com números: igrejas que reportam “sucesso” às comunidades que as enviam, medido em assistência e crescimento, sem que isso corresponda a conversão portuguesa real (T11, T12).

Critérios de fidelidade que não dependem do resultado

O que resta, então, para avaliar o trabalho? Critérios que qualquer um pode observar sem esperar por estatísticas de conversão: a pregação é fiel ao texto, ou dobra-se à vontade da audiência? A presença é genuína e continuada (T18), ou é de passagem? A contextualização respeita a linha entre falar a língua da cultura e diluir o Evangelho nela (T16)? Há honestidade pública sobre o que está e o que não está a funcionar, do tipo que o Bloco III documentou ser tão raro? Estas perguntas têm resposta. A pergunta sobre quantos vão crer, não.

Por que isto importa

Esta forma de medir liberta o trabalho da ansiedade do resultado sem o libertar do rigor — continua a exigir excelência, apenas não a mede pela mesma régua que gera os números inflados do Bloco III. O que resta, então, é a pergunta mais prática de todas: quem, exactamente, deve fazer este trabalho? É a essa pergunta que o bloco responde a seguir, e com ela se fecha.

Fontes

  • [Conhecimento geral] Atos 17:32-34 (NVI) — reação mista dos atenienses ao discurso de Paulo
  • [Conhecimento geral] 1 Coríntios 3:6 (NVI) — “Eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem dá o crescimento”