Em 1517, um monge agostinho pregou noventa e cinco teses na porta de uma igreja em Wittenberg e a Europa religiosa nunca mais foi a mesma. Nas décadas seguintes, a Reforma reescreveu o mapa da Alemanha, da Suíça, da Escandinávia, dos Países Baixos e das Ilhas Britânicas. Portugal, no auge do seu império, ficou de fora dessa reescrita — e é tentador concluir, como muita gente conclui, que a Reforma simplesmente nunca chegou aqui.
Essa conclusão está errada. Não porque Portugal tenha tido uma Reforma como a alemã ou a suíça — não teve — mas porque teve, sim, um encontro real com as suas ideias. E esse encontro foi cortado pela raiz antes de poder crescer.
Os homens que trouxeram Wittenberg para Portugal
O nome mais documentado é o de Damião de Góis: humanista, diplomata, guarda-mor da Torre do Tombo, e um dos portugueses mais viajados do seu tempo. Nas suas passagens pela Europa do Norte, Góis conviveu com círculos reformistas e discutiu teologia diretamente com Lutero. Não foi caso único. Diogo de Teive, Fernão de Pina e Lopo de Almeida também viajaram e estudaram na Alemanha, trazendo consigo o contacto com as novas ideias.
Em Coimbra, professores do Colégio das Artes chegaram a ser acusados de ensinar doutrina luterana. E havia uma porta de entrada mais discreta ainda: as obras de Erasmo de Roterdão, lidas nos círculos humanistas portugueses. Diogo de Gouveia Sénior, reitor português em Paris, alertou os seus superiores de que essas obras “levariam irremediavelmente ao luteranismo” — um sinal de como a fronteira entre humanismo erasmista e heresia luterana era, aos olhos da época, ténue.
Não foi um movimento de massas, como na Alemanha ou na Suíça. Foi uma corrente estreita, culta, concentrada nos meios universitários e diplomáticos — mas real, com nomes, datas e consequências.
Uma Inquisição com um mandato que incluía o luteranismo
Em 1536, D. João III obteve do Papa a criação da Inquisição portuguesa. É importante ser preciso aqui: o alvo histórico principal da Inquisição em Portugal foram, ao longo de quase três séculos, os cristãos-novos suspeitos de judaizar em segredo — não os protestantes. Mas o seu mandato incluía explicitamente processar o “luteranismo” a par de outras heresias, e foi isso que aconteceu aos poucos humanistas que tinham olhado para o Norte da Europa com curiosidade.
O efeito, no que toca à corrente reformista portuguesa, foi definitivo: circulação de livros proibidos, processos por heresia, e um clima de vigilância que tornou impensável continuar a discutir estas ideias em público. Décadas mais tarde, já num Portugal onde a Inquisição estava plenamente consolidada, o próprio Damião de Góis foi investigado e processado pelas ligações que mantivera na juventude com os círculos reformistas do Norte da Europa. Morreria pouco depois — um símbolo do preço que uma geração de humanistas portugueses pagou por ter olhado para Wittenberg.
Existiu ou não existiu? Um debate honesto
Há historiadores que preferem uma leitura mais cautelosa: os protestantes em Portugal eram tão poucos e tão discretos que não chegaram a constituir um “movimento”, e a Inquisição portuguesa, ao contrário do que por vezes se assume, não foi criada por causa deles — foi criada sobretudo para lidar com a questão dos cristãos-novos, numa altura em que, segundo esta leitura, os protestantes eram “quase inexistentes” no reino.
Ambas as leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não houve uma Reforma portuguesa no sentido de um movimento popular e institucional, como aconteceu noutros países. Mas houve, sim, uma corrente real de humanistas portugueses em contacto direto com as ideias de Lutero e de Erasmo — e essa corrente foi identificada, processada e apagada antes de poder tornar-se em mais alguma coisa. Chamar-lhe “nada” é tão impreciso como chamar-lhe “uma Reforma”.
Por que isto importa para a missão hoje
Isto muda a forma como se deve pensar o campo missionário português. Portugal não é terreno onde o Evangelho reformado nunca foi ouvido — é terreno onde ele foi ouvido, por um punhado de pessoas, e essa possibilidade foi ativamente eliminada antes de poder amadurecer. A barreira que se sente hoje não nasceu do desconhecimento. Nasceu, em parte, de séculos a treinar uma cultura inteira a associar dissidência religiosa a perigo, exílio e estrangeirismo.
Este é o primeiro corte na terra. O próximo tema mostra o instrumento que fez esse corte com mais profundidade — e o que ele deixou gravado na forma como Portugal ainda hoje reage à diferença religiosa.
Fontes
- [Verificado] Infopédia — “Luteranismo e Reformas Religiosas em Portugal” (infopedia.pt)
- [Verificado] Infopédia — “Receção da Reforma Protestante em Portugal” (infopedia.pt)
- [Conhecimento geral] Cronologia geral da Reforma europeia (1517, Wittenberg; Concílio de Trento, 1545–1563)