Quase três séculos depois de a Inquisição ter cortado pela raiz o encontro erudito de Portugal com a Reforma (T01, T02), algo extraordinário aconteceu numa pequena ilha do Atlântico — e a maior parte dos evangélicos portugueses de hoje nunca ouviu falar disso.
O médico de Glasgow
Robert Reid Kalley (1809–1888) nasceu em Glasgow, na Escócia, e formou-se em medicina. Era, inicialmente, agnóstico. Converteu-se enquanto clinicava gratuitamente entre os pobres de Kilmarnock — uma experiência que marcaria toda a forma como mais tarde exerceria o ministério: médico primeiro, pregador depois, sempre entre os que ninguém mais via.
Em 1838, Kalley foi para a Ilha da Madeira com a esposa, Margaret Crawford, que sofria de tuberculose e precisava de um clima mais ameno. Ao chegar, ficou perturbado com a pobreza, o analfabetismo e a superstição religiosa que encontrou entre os madeirenses.
O que ele fez
Kalley exerceu medicina gratuitamente entre os pobres. Fundou a primeira rede de escolas primárias gratuitas de Portugal — dezassete escolas, financiadas do próprio bolso, numa altura em que o Estado português ainda estava longe de investir em educação primária universal. Fundou um hospital no Funchal. Começou a distribuir Bíblias em português, importadas de Inglaterra. E começou a pregar e a ensinar as Escrituras diretamente ao povo.
A 8 de maio de 1845, fundou a primeira Igreja Presbiteriana de Portugal, no Funchal — ordenou presbíteros e diáconos, e celebrou a Ceia do Senhor com 61 convertidos madeirenses. Sessenta e um adultos, a tomar uma decisão pública e arriscada, não é uma nota de rodapé. Pelos critérios de qualquer historiador do avivamentismo, é um avivamento.
A perseguição
A reação não tardou. O Bispo do Funchal proibiu as reuniões religiosas de Kalley em 1841. As Bíblias foram proibidas em 1843. Em agosto de 1846, a casa do casal Kalley foi incendiada por uma multidão. Fugiram disfarçados para os Estados Unidos. Mais de dois mil madeirenses protestantes foram expulsos da ilha pelas autoridades — refugiados em Trindade e Tobago, nas Bermudas e nos Estados Unidos.
O mesmo reflexo documentado no tema anterior — tratar a diferença religiosa como ameaça à comunidade, resolvida pela violência e pela expulsão — continuava bem vivo em 1846, três séculos depois de a Inquisição ter sido fundada precisamente para o treinar.
O exílio que gerou missão
Os madeirenses expulsos fundaram comunidades nos Estados Unidos — incluindo a cidade de Jacksonville, no Illinois, conhecida até hoje como “Portuguese Hill”. Décadas mais tarde, dessas mesmas comunidades exiladas vieram missionários de volta a Portugal — e, em 1870, foi fundada a Igreja Presbiteriana de Lisboa, a congregação protestante mais antiga em funcionamento contínuo em Portugal continental.
Kalley, depois da morte da primeira esposa, casou com Sarah Poulton e partiu para o Brasil em 1855. Ali, com convertidos portugueses e brasileiros, fundou a Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro — ainda existente hoje, a mais antiga igreja protestante de língua portuguesa do Brasil. (Nota teológica: Kalley começou presbiteriano, mas tornou-se congregacionalista antes de ir para o Brasil; as igrejas que fundou seguem tradição congregacional com elementos reformados.)
Por que isto importa
A história de Kalley prova duas coisas ao mesmo tempo. Primeira: quando o Evangelho chegou a gente comum — não apenas aos círculos eruditos de Lisboa e Coimbra do tema 01 — a resposta portuguesa podia ser imediata e massiva. Segunda: o mesmo mecanismo de violência e exclusão que a Inquisição institucionalizou continuava a funcionar, por conta própria, mesmo sem tribunal nenhum a ordená-lo. Há uma linha direta entre a Madeira de 1845 e qualquer igreja reformada em Portugal hoje: o exílio gerou a missão que gerou o regresso.
Fontes
- [Verificado] Wikipedia EN — “Robert Reid Kalley”
- [Verificado] Hinologia.org — biografia de Robert Kalley
- [Verificado] “Um Escocês Protestante no Mundo Luso-Brasileiro” — Lusitania Sacra (artigo académico)