O bloco anterior contou como chegámos até aqui: uma Reforma cortada pela raiz no século XVI (T01), a máquina que a cortou (T02), a única grande exceção e a violência que se seguiu (T03), quarenta anos de invisibilidade legal (T04), e uma liberdade religiosa, a partir de 1974, que produziu mais gente a sair da religião do que gente a mudar de religião (T05). Este bloco começa onde qualquer diagnóstico sério tem de começar: pelos números de hoje, sem os dobrar em nenhuma das duas direções — nem mais católico do que é, nem mais secular do que é.
80,2% dizem-se católicos. Isso significa menos do que parece.
Segundo o Censos 2021 do INE, 80,2% dos portugueses com mais de 15 anos identificaram-se como católicos — 7.043.016 pessoas. É uma maioria esmagadora, e é também uma queda: em 2011, a percentagem era 88,3%. Em dez anos, a identificação católica caiu 8,1 pontos percentuais.
Mas identificação não é a mesma coisa que prática. O Censos português não pergunta com que frequência alguém vai à missa — só pergunta com que religião a pessoa se identifica. Sondagens mais antigas, feitas pela Universidade Católica Portuguesa, davam uma imagem bem diferente da prática real: por volta de 19% da população total a frequentar a missa dominical com regularidade, e apenas cerca de 10% a comungar regularmente. Estes números são anteriores ao Censos 2021 e não podem ser tratados como precisos para hoje — mas a distância que revelam, entre o rótulo e a vivência, é o dado mais importante deste tema, e é exactamente o assunto do próximo.
O grupo que mais cresce em números absolutos
Os “sem religião” mais do que duplicaram numa década: 615.332 pessoas em 2011, 1.237.130 em 2021, segundo o mesmo Censos. Não é uma tendência pequena nem um efeito estatístico — é o maior movimento religioso mensurável em Portugal na última década, e não é em direção a nenhuma fé. Um estudo mais antigo, de 2015 (IPAM), já apontava 31% dos portugueses com menos de 40 anos sem qualquer atividade religiosa — um número que deve ser lido com cautela, por ser mais antigo e de fonte única, mas que aponta na mesma direção dos dados do Censos: a secularização está concentrada nas gerações mais novas.
Onde ficam os protestantes nestes números
Os protestantes/evangélicos passaram de 0,9% da população em 2011 para 2,1% em 2021 — 186.832 pessoas segundo a auto-identificação do Censos. É crescimento real, mas continua a ser uma fração muito pequena: por cada português evangélico, há cerca de 38 católicos autoidentificados e 6,6 pessoas sem religião. O Tema 09 volta a este número com mais detalhe — incluindo uma segunda forma de o contar, que dá um resultado bem maior.
Por que isto importa
Nenhum destes números, sozinho, conta a história toda. 80,2% de católicos sugere um país profundamente religioso; a prática real sugere o contrário; o crescimento dos “sem religião” sugere uma secularização acelerada; o crescimento protestante, ainda que pequeno, é o mais rápido de todas as categorias religiosas do país. O retrato honesto do campo missionário português não é nem o de uma fortaleza católica inexpugnável, nem o de um deserto secular sem esperança — é mais estranho e mais interessante do que qualquer um dos dois extremos, e os próximos quatro temas deste bloco desdobram cada uma destas peças com mais cuidado.
Fontes
- [Verificado] INE — Censos 2021, dados sobre religião (via RTP, Agência Ecclesia, Universidade Católica Portuguesa)
- [Fonte académica] Sondagem da Universidade Católica Portuguesa sobre prática religiosa (frequência à missa e comunhão) — dados anteriores a 2021, usados com cautela
- [Fonte académica] Estudo IPAM (2015) — 31% dos portugueses com menos de 40 anos sem atividade religiosa