O Tema 06 já apresentou o número mais sólido: 186.832 pessoas, 2,1% da população, auto-identificadas como protestantes/evangélicas no Censos 2021. Este tema pergunta porque é que esse não é o único número em circulação — e quem, de facto, está a converter-se hoje.
Um número, duas formas de contar
A Aliança Evangélica Portuguesa estima cerca de 500 mil “fiéis” evangélicos no país — quase três vezes o número do Censos. A diferença não é uma contradição, é um problema de método: o Censos regista quem se autodeclarou evangélico numa única tarde de preenchimento de um formulário nacional; a AEP conta a partir de listas de membros e frequentadores regulares de igrejas afiliadas, incluindo pessoas que talvez nunca respondam “evangélico” a um funcionário do Estado, mas que estão todos os domingos numa congregação. Nenhum dos dois números está “errado” — medem coisas ligeiramente diferentes, e é por isso que este site nunca trata um número isolado, sozinho, como definitivo.
Onde vivem
62% dos protestantes portugueses concentram-se na Área Metropolitana de Lisboa, segundo dados cruzados do INE e da AEP. A Aliança Evangélica Portuguesa identificou cinco distritos do interior — Bragança, Guarda, Portalegre, Évora e Beja — como “Quinto Profundo”: zonas de ação prioritária pela sua presença evangélica quase inexistente. Um relatório mais recente da própria AEP, publicado em 2025 a partir de 509 entrevistas com pastores, chega de forma independente à mesma conclusão: identifica a Madeira, a Guarda e Portalegre como as regiões “mais carenciadas” do país, com a Guarda a ter metade das suas igrejas com menos de 25 pessoas. Dois relatórios da AEP, com cinco anos de intervalo entre si, apontam para o mesmo mapa: Mirandela, no distrito de Bragança, está mesmo no centro geográfico deste vazio.
Quem são os novos convertidos
Aqui está o dado mais interessante do relatório de 2025 — o maior estudo já feito sobre igrejas evangélicas em Portugal, com quinhentos e nove pastores entrevistados. Olhando para os convertidos dos últimos dois anos: 76% são mulheres, 82% têm menos de 43 anos, e — o número que mais importa aqui — 54% nasceram em Portugal, e 48% eram anteriormente católicos não praticantes. Não são imigrantes a preencher bancos de igrejas de diáspora. São, na sua maioria, portugueses a sair do catolicismo cultural descrito nos Temas 06 e 07 e a entrar, de facto, numa fé evangélica.
Duas perguntas diferentes
É importante não confundir duas perguntas. A primeira: quem compõe hoje as congregações evangélicas em Portugal? Aí, a imigração continua a pesar muito — muitas igrejas foram plantadas por e para imigrantes, como o Bloco III detalha com números próprios. A segunda pergunta é mais precisa: quem está, agora, a converter-se pela primeira vez? E a essa pergunta, os dados de 2025 respondem com clareza: a fatia de conversões genuinamente portuguesas, a partir do catolicismo, é significativa e mensurável. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, sem se contradizerem — uma descreve a composição actual de muitas igrejas, a outra descreve a tendência mais recente entre os novos convertidos.
Por que isto importa
Nenhum destes números sozinho dá o retrato completo — nem os 186.832 do Censos, nem os 500 mil da AEP, nem os 54% de convertidos portugueses do relatório de 2025. Juntos, mostram um campo pequeno, concentrado em Lisboa, quase ausente do interior — mas também um campo onde a conversão portuguesa real está a acontecer, de forma mensurável. O próximo tema explica porque é que, apesar de tudo isto, quase ninguém sabe que há igrejas protestantes portuguesas com mais de um século de existência.
Fontes
- [Verificado] AEP — “Igrejas Evangélicas em Portugal Vistas de Perto”, Relatório 2025 (509 entrevistas a pastores; verificado via CNN Portugal, RTP, Sete Margens, 24notícias e o relatório original)
- [Verificado] INE — Censos 2021 (referência cruzada com o Tema 06)
- [Verificado] Missão Esperança para a Europa / Assessoria de Missões da AEP (2020) — dados sobre o “Quinto Profundo”