Por que um escândalo de 1995 ainda pesa sobre igrejas que nunca tiveram nada a ver com ele?

Os dois temas anteriores explicaram porque muitas igrejas brasileiras falham em alcançar portugueses. Este tema conta a história de um único episódio que tornou essa tarefa ainda mais difícil para todas — inclusive para as que nunca fizeram nada de errado.

1989–1995: a entrada agressiva

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada no Brasil em 1977 por Edir Macedo, chegou a Portugal em 1989 — a sua primeira incursão internacional, com Portugal escolhido estrategicamente como porta de entrada para a Europa e para a África lusófona. Em 1992, a IURD comprou o Cine-Teatro Império em Lisboa por 20 milhões de dólares. Em 1995, tentou comprar o Coliseu do Porto — um dos espaços culturais mais emblemáticos do país.

As grades do Coliseu

A tentativa “mobilizou a sociedade civil e também muitos artistas”, relata a RTP num artigo de 2025 assinalando os trinta anos do episódio. Uma das imagens que ficou na memória colectiva foi a do músico Pedro Abrunhosa acorrentado às grades do Coliseu, em protesto. A compra foi travada pela mobilização pública — e trinta anos depois, em 2025, o próprio Coliseu do Porto lançou um livro comemorativo sobre o episódio e organizou um concerto com os artistas que resistiram.

O estigma que reverberou para além da IURD

Uma investigação académica sobre a transnacionalização evangélica brasileira (publicada via OpenEdition Journals) descreve o efeito duradouro: “A tentativa de compra do Coliseu, associada a outros factores, contribuiu fortemente para a construção em Portugal de estigmas depreciativos sobre a Universal, que reverberaram nas demais igrejas evangélicas brasileiras que vieram posteriormente a instalar-se no país.” O pastor português Rodrigues Pereira foi mais longe: o impacto negativo da IURD “interferiu na aceitação das próprias igrejas evangélicas portuguesas no seu próprio país” — não só as brasileiras pagaram o preço, as portuguesas também.

Onde a IURD está doutrinalmente

A Aliança Evangélica Portuguesa rejeitou a IURD por unanimidade quando esta tentou aderir: “A sua doutrina e a sua prática não respeitam os valores e os princípios da Aliança Evangélica.” O professor Donizete Rodrigues, da Universidade da Beira Interior, resume à CNN Portugal: “Chegou em Portugal de forma muito agressiva. Tentou comprar espaços históricos, como o Coliseu do Porto. É uma igreja com muito dinheiro, muitos fiéis, com muito poder político. Quando chega num país, cria impacto e também anticorpos.”

O padrão que continuou depois

O problema estrutural que a IURD expôs — pastores sem qualquer certificação ou prestação de contas — continuou a produzir casos noutras igrejas, sem ligação entre si. Um especialista em ética e ciência das religiões, José Brissos Lino, descreveu-o à CNN Portugal em 2025: “Chega cá uma pessoa que diz que é pastor e ninguém vai confirmar se ele foi ordenado pastor ou não (…) Se a coisa funciona, muito bem. Se não funciona, vai para outra cidade ou até para outro país e deixa dívidas.” O caso mais grave documentado: dois pastores brasileiros, José Flores e Óscar Gonçalves, foram condenados em Lisboa por liderarem, ao longo de sete anos, uma rede que introduziu ilegalmente em Portugal pelo menos 150 imigrantes através de empresas fraudulentas — penas de quatro anos e meio (suspensas), com mais 21 arguidos condenados. O presidente da AEP, Timóteo Cavaco, reconhece a dificuldade: “É difícil controlar o surgimento de igrejas independentes sobre as quais se sabe muito pouco.” Nenhuma das igrejas envolvidas nestes casos estava filiada na AEP — mas o dano à percepção pública recai sobre todas.

Por que isto importa

Trinta anos depois do Coliseu, o padrão repete-se: chegar sem prestação de contas, crescer depressa, e ocasionalmente desmoronar-se num escândalo que reforça o estereótipo para todas as outras. O próximo tema olha directamente para essa percepção — a frase que resume como o português médio vê, hoje, o conjunto dos evangélicos.

Fontes

  • [Verificado] RTP — “Venda do Coliseu do Porto à IURD travada há 30 anos” (2025)
  • [Verificado] OpenEdition Journals — investigação sobre transnacionalização evangélica brasileira para a Europa
  • [Verificado] CNN Portugal — “Evangélicos continuam a crescer em Portugal” (2025)
  • [Verificado] Correio da Manhã — “Rede evangélica condenada por trazer imigrantes ilegais para Portugal”
  • [Verificado] Observador — “Jesus afasta-se dos extremos” (2025)